Wednesday, September 12, 2012

Bem-vindo ao Monte Elbrus, o pico mais alto da Europa.
Welcome to Mount Elbrus, Europe's highest peak.


Breathtaking.
Originally uploaded by Andreas Toscano.
Atingir o topo do Monte Elbrus não é fácil. Muitos dos que vem para cá não conseguem alcançar o último dos 5642 metros de altitude. A razão é simples: não dá para saber como o seu corpo vai responder ao ar rarefeito antes de chegar lá e, principalmente, não dá para saber quais vão ser as condições climáticas no dia da subida.
O que é possível (e necessário) fazer é tentar se aclimatizar ao máximo. Para isto são feitas algumas subidas mais curtas nos dias que antecedem a subida final.
As duas primeiras destas subidas acontecem ao redor de Tcheguet e Teskol, vilarejos na base do Elbrus de onde partem todas as excursões. É lá também que você aluga todo o equipamento especializado: machados de gelo, garras para as botas, etc.
A primeira subida preparatória é no Monte Tcheguet, com 2900 metros de altitude. Apesar da inclinação acentuada e do sol, a subida não exigiu muito de ninguém (talvez por isto seja a primeira). Nesta época do ano, a neve já foi substituída por muito verde e muitas flores selvagens, que dão cor à montanha. As atracões principais deste dia ficaram por parte da placa que indica o começo da zona militar (próxima à fronteira com a Geórgia) e por conta do Monte Dongus Orun. Além de ser quase 1500 metros mais alto que o Tcheguet, o monte tem muitas geleiras (umas delas parece o número 7) que, de tempos em tempos, se partem e emitem um som parecido com o de um trovão pelo vale.
A segunda subida parece mais assustadora do que a primeira. Afinal, é preciso recomeçar do zero e atingir os 3100 metros de altitude do Monte Terskol. Para piorar, o tempo estava chuvoso. Depois da primeira hora, ficou claro que a subida seria mais fácil do que a do dia anterior. A inclinação é muito menos acentuada e o piso é muito mais firme. As atracões do dia ficaram por conta da cachoeira Trança de Moça e do observatório que fica a quase 3000 metros de altitude. No caminho ainda é possível ver uma antiga clinica psiquiátrica (de fora não passa de uma casinha de madeira). Cientistas soviéticos construíram a clínica ali porque acreditavam que o ar rarefeito podia curar esquizofrenia. Vai saber.
O terceiro dia começa com um passeio de bondinho até 3500 metros de altitude. Dali, é preciso subir mais 200 metros até o acampamento base. O local é conhecido como "Barris" (Botchiki, em russo) porque os alojamentos são cilindros enormes de metal, com 6 camas cada. Bem, chamar aquilo de cama é um tremendo elogio. Na verdade, cada barril tem 6 prateleiras, mal feitas e mal cuidadas, onde você joga o seu saco de dormir e desmaia depois de cada caminhada.
Depois de colocar tudo nos dormitórios, é hora de partir para a terceira subida de aclimatização. É uma subida curta, até 4100 metros de altitude, onde fica o Refúgio 11. Este lugar é um alojamento antigo que pegou fogo e foi reformado. Hoje em dia o local é usado apenas por aventureiros hardcore, que curtem um pouco de nostalgia. Apesar de curta, esta subida é muito importante pois é o primeiro teste em neve e altitude extrema. Felizmente, nosso grupo não teve problema nenhum.
O quarto dia mistura um pouco de tudo: altitude extrema, longa duração, exposição ao clima e uso de equipamento especializado. Nós saímos do acampamento base às oito da manhã usando botas de plástico, garras, proteção contra as garras e uma mochila com todo o resto: roupa extra, comida, água, etc. O objetivo era atingir os 4650 metros de altitude da encosta Pasturrovka (exatamente 1000 metros a menos que o topo) em 4 horas de caminhada. Apesar do frio e do vento, o grande problema foi o sol. O ar rarefeito não filtra os raios solares e a neve reflete luz por todos os lados. Ou seja, a pele exposta corre risco de queimaduras severas enquanto a parte coberta parece uma sauna. Encontrar um equilíbrio seguro e confortável é uma tarefa árdua. E caso você consiga encontrar o tal equilíbrio, ele não dura muito. Em questão de minutos, o vento aumenta, começa a nevar forte e o sol (assim como você) fica coberto por uma névoa espessa. Fica difícil ver 2 metros adiante. Hora de trocar de roupa de novo. E rápido porque o frio é absurdo. Uma hora depois da última troca de roupa, alcançamos os 4650 metros de altitude. Felizmente todos do nosso grupo chegaram bem. Voltamos, almoçamos e desmaiamos até o jantar.
O quinto dia é o dia de descanso. É o dia que você tem para planejar a subida ao topo: que horas começar, que estratégia seguir, quanto de provisões levar, etc. Tudo isto depende da previsão do tempo e das condições da trilha. No nosso caso, as condicões eram as menos favoráveis: neve fresca (que dificulta a caminhada) e vento forte (que obriga você a vestir mais roupas).
O sexto dia é o dia "D". Dia do tudo ou nada já que não há tempo para uma segunda tentativa. Devido ao mau tempo, fomos aconselhados a subir até 4600 metros num trator. Isto reduziria a subida em aproximadamente 3 horas e meia e nos daria mais chances de chegar ao topo antes das condições piorarem ainda mais. Com este plano em mente, decidimos tomar café-da-manhã às 2h da manhã e partir às 3h. Devido à ansiedade, poucos conseguiram dormir ou tomar café. Às 3h da manhã, contudo, estavam todos prontos para partir munidos de lanternas na cabeça para enxergar naquela escuridão. Aqui começa o desafio de verdade.
O primeiro problema foi que eu estava usando muita roupa e quase fritei dentro do pequeno trator, onde estavam empoleiradas mais 10 pessoas. Quando alcançamos a altitude desejada, eu estava prestes a vomitar. Mas como não havia tempo a perder, começamos a subida. A neve e o vento eram constantes, mas permaneciam em níveis aceitáveis. As primeiras duas horas de subida foram tranqüilas e, logo, o sol apareceu à nossa direita. Neste momento, fizemos a primeira parada e pude finalmente olhar para trás. Simplesmente inacreditável. Indescritível é a melhor palavra para descrever o que eu vi. Estávamos uns 200 metros acima das nuvens e o cume das montanhas vizinhas era a única coisa que despontava naquele mar de algodão. O sol dava um tom alaranjado à neve que cobria os picos e o vento insistia em mudar a paisagem ao nosso redor com uma velocidade impressionante. O vento era tão forte que, muitas vezes, a trilha deixada pelas pessoas que iam à minha frente sumia antes de eu passar.
Conforme o sol subia, os desafios aumentavam. O ar ficava cada vez mais rarefeito, o calor dentro da roupa aumentava, o vento ficava cada vez mais forte e, em poucos minutos, a neblina. Algumas dezenas de metros acima a visibilidade caiu para zero. Literalmente. Para qualquer lugar que você olhasse, só se via branco. Um branco sem profundidade. Parecia que estávamos mergulhados num mar de leite. O jeito era seguir lentamente e olhar bem onde a pessoa que ia à sua frente havia pisado.
O ritmo nesta parte da caminhada era um passo a cada 3 segundos. Passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo a passo... Foram aproximadamente 8400 passos neste ritmo. Você entra literalmente num estado zen de consciência. É preciso administrar a passada, a respiração, a temperatura do corpo e a mente, que teima em procurar algo mais para fazer.
Quanto mais subíamos, menos otimista nossos guias iam ficando (nosso grupo acredita que eles sabiam que seria impossível chegar ao topo naquele dia, mas isso não vem ao caso). Quando atingimos 5300 metros de altitude, o vento ficou ainda mais forte (sensação térmica de -20C), com alto risco de avalanches. Foi então que nosso guia principal, Abuh (que já escalou o Everest duas vezes), disse que teríamos que retornar à base imediatamente. A maioria das pessoas do nosso grupo e do grupo que vinha logo atrás tentou negociar, encontrar um meio termo, mas nestas circunstâncias os guias assumem uma postura de risco zero. Quem quiser prosseguir, independente da opinião dos guias, deve assinar uma cláusula isentando eles, a organização e todos os envolvidos de qualquer responsabilidade em caso de acidente. Como ninguém estava disposto a se tornar mais uma vítima do Monte Elbrus (morrem mais pessoas lá do que no Everest), fizemos meia volta e começamos a pior parte da jornada: a descida. O corpo cansado de tanto exercício, a mente exaurida pela falta de oxigênio, o calor insuportável (o céu abriu a partir dos 4800 metros de altitude) e o risco de queimaduras de sol, transformaram 2 horas e meia de descida em quase 4 horas de tortura. Eu litralmente me desesperei uma hora, achando que aquilo nunca iria acabar. Fui o ultimo a chegar no acampamento base. Cheguei me arrastando, usando somente uma camiseta que estava por baixo de tudo. Entrei no meu barril, cai na cama e desmaiei.
No dia seguinte, discutimos a experiência que tivemos no dia anterior, fizemos as malas e retornamos ao hotel em Tcheguet. Para compensar o sofrimento dos últimos dias, tivemos um almoço delicioso, com espeto de frango. Parece bobagem, mas comer carne depois de quase 5 dias à base de carbohidratos (porque o corpo não digere nada muito complexo em altitude extrema), é realmente uma recompensa. Arriscaria dizer que foi um dos melhores frangos que eu comi na vida. O fotógrafo trouxe as fotos da subida. Alguns hesitaram em comprar as fotos já que não tinham alcançado o topo, mas no final entenderam que aquilo era o registro de uma viagem inesquecível e não de uma missão falida. Compramos alguns suvenirs, jantamos e, às 6:30 da manhã, partimos de volta para o aeroporto de Águas Minerais (Mineralnye Vody), onde pegaríamos o avião para Moscou.
E pegamos.
Senão não teria escrito este post.


Reaching Mount Elbrus’ summit is not an easy task. Many who go there never set foot on the last of its 5642 meters of altitude. The reasons are quite simple: you never know how your body will react to thin air until you get there and, above all, you never know what the weather will be like when you try to get there.
What you can (and should) do is prepare yourself by acclimatizing beforehand. That’s why people usually do a couple of shorts ascents before the final one. The first two of these acclimatization ascents happen around Cheguet and Terskol, two villages next to Mount Elbrus from where most excursions leave. There, you’ll also find rental shops where you can get all the specialized gear: ice axes, crampons, etc.
The first ascent happens at Mount Cheguet, where we reached 2900 meters of altitude. Despite the steep trail and the sun, the hike didn’t demand much from anyone (maybe that’s the reason why it is the first one). At this time of the year (June), much of the snow has been replaced by greenery and wild flowers that give color to the mountain. The main attractions of the day were the sign that shows where the military zone starts (close to the border with Georgia) and Mount Dongus Orun. Besides being almost 1500 meters higher than Mount Cheguet, this mount has lots of glaciers attached to it (one of them resembles the number 7). Every few minutes these glaciers crack, sending a thunder-like sound throughout the valley.
The second ascent looks a bit more scary than the first one. After all, you have to restart from the same point and reach 3100 meters of altitude at Mount Terskol. To make things worse, the weather was a little rainy and cold. After the first hour, it was clear that the climb would be much easier than the first one. The trail is not that steep and a lot less slippery. The main attractions of the day were the Maiden’s Braid Waterfall and the Observatory located at almost 3000 meters of altitude. On the way to the top it’s also possible to spot an old psychiatric clinic (a small cabin to be honest). Soviet scientists built it because they believed that thin air could cure schizophrenia. Who knows?
The third day starts with a cable-car ride to 3500 meters of altitude. From there, you need to hike another 200 meters uphill to reach base-camp. The place is known as “Barrels” (Bochki, in Russian) because they transformed huge metal cylinders into lodging, with 6 beds each. Well, calling them “beds” is a compliment. To be perfectly honest, each barrel has 6 poorly made and poorly maintained shelves, where you basically throw your sleeping bag and crash after each hike.
Once you have settled down, it’s time for the third acclimatization ascent. It’s a relatively short climb up to 4100 meters of altitude, where the Refuge 11 is located. This is an old lodging which burned down once and was somewhat renovated. Now the place is used by really hardcore climbers who appreciate a bit of nostalgia. Despite being a short ascent, this one is fundamental as it’s the first test on snow and thin air. Happily, everyone in our group did well.
The fourth day has a bit of everything: extreme altitude, endurance, exposure to the weather, and special gear. We left base-camp at 8 in the morning wearing plastic boots, crampons, gaiters, and a backpack with all the rest: more clothes, food, water, etc. The goal was to reach 4650 meters of altitude at the Pastukhovka Cliff (exactly 1000 meters below the summit), in 4 hours. Even though it was extremely cold and windy, the greatest challenge was the sun. Thin air doesn’t filter solar rays and the snow reflects the light from all possible angles. If you leave your skin exposed, it is very likely to get severely burnt. If you decide to cover it, you feel like walking inside a sauna. Finding a safe and comfortable balance between the two is a Herculean task. And even if you manage to find such balance, it won’t last long. In a matter of minutes, the wind gets stronger, it starts to snow pretty heavily, and the sun (as well as yourself) is covered by a thick fog. It gets hard to see around 2 meters ahead. Time to change clothes again. And fast because it’s fricking cold there. One hour after our last change of clothes we reached our goal. Again, happily, everyone in our group got there. We got back, had lunch and crashed till dinner time.
The fifth day is rest day. It’s a day dedicated to planning the final ascent: what time to get up, when to start, which strategy to follow, how much provisions to take, etc. All the answers to these questions are weather related. In our case, the forecast was the least favorable: a lot of fresh snow (makes hiking almost impossible) and strong winds (makes you wear/carry more clothing).
Day 6 is “D” day. It’s all or nothing day, as there’s no time for a second attempt. Due to the extreme weather conditions, we were advised to go back to Pastukhovka on a snowcat. That would save us 3 and a half hours of hiking, increasing our chances of reaching the top before things got any worse. With that plan in mind, we set breakfast for 2 in the morning, in order to take off at 3h. Due to the overall anxiety, very few were able to sleep or have “breakfast”. At 3 o’clock sharp though, everyone was ready and geared up to start. We had head-lamps to help us walk in the dark. And that’s were the real challenge begins.
For starters, I was wearing too many layers of clothing and almost fried inside the tiny snowcat, where 10 other people where sitting (and breathing the same oxygen). When we got to the desired altitude, I was about to throw up. But since there was no time to waste, we started walking. The snow and the wind were constant, but bearable. The first two hours went by quite smoothly and, soon, the sun appeared on the horizon. At this moment, we did our first stop and I could finally look back. Simply breathtaking. Indescribable is probably the best word to describe what I saw. We were about 200 meters above the clouds and the other peaks were the only thing popping out of that sea of cotton. The sun had painted orange the snow at the very top of each mountain and the wind insisted on changing the landscape faster than I could memorize it. In fact, the wind was so strong it kept erasing the track left by the person walking ahead of me before I could stepped on it.
As the sun rose, the challenges increased. The air got thinner and thinner, the heat inside the clothes got more and more intense, the wind got stronger and stronger, and inevitably a thick fog came down on us. A couple of meters uphill and the visibility dropped down to zero. Literally. No matter where you looked, all you could see was white. A white with no depth. It felt like we were swimming in milk. The only solution was to walk slowly and to keep the person ahead of you in sight.
The pace during this part of the ascent was 1 step every 3 seconds. Step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step by step... I took around 8400 steps at this pace. In order to get through, you have to get into a zen state of mind. You have to control the pace, your breathing, your body temperature, and your mind that keeps looking for something else to do.
The higher we got, the less optimistic our guides became (our group believed they knew it’d be impossible to reach the summit that day, but that doesn’t matter any more). When we got to 5300 meters of altitude, the wind got even stronger (wind chill of -20C) with high probability of avalanches. That’s when our main guide, Abuh (who climbed the Everest twice), told us we’d have to turn around and go back. Most of the people in our group and in the group coming right after us tried to negotiate, to find some sort of compromise. Waste of time. In these situations, all guides adopt a risk free posture. Those who want to proceed without the guide must sign a clause that exempts them, the organizers and everyone involved of any responsibility in case of accident. Since no one was too keen on becoming the next victim of Mount Elbrus (more people die here than on the Everest), we all turned around and started the worst part of the journey: heading down. Our bodies were exhausted from all the exercise. Our minds were not functioning well due to the lack of oxygen. All that combined with an unbearable heat (the sky cleared around 4800 meters of altitude) and the risk of sun burns transformed a 2-hour hike down into 4 hours of torture. I literally despaired at some point, thinking it would never end. I was the last to get back. I got to base-camp dragging myself, wearing only a t-shirt I had under all the other gear. I entered my barrel, fell on the bed and fell asleep immediately.
On the next day, we discussed what we had experienced the day before. We then packed our bags and got back to the hotel in Cheguet. To make up for all the suffering, we had a delicious lunch of chicken on the skewer. It sounds silly, but eating meat after 5 days eating only carbs (because your body doesn’t digest anything too complex in high altitude) feels like a real reward. I’d risk saying it was one of the best chicken I’ve ever had in my life. After lunch, the photographer brought us the pictures of our ascent. Many hesitated to buy them because we hadn’t reached the top. Then, they understood that they were the documentation of an unforgettable trip more than the evidence of a failed attempt, and bought them. We bought a couple of souvenirs in the local market, had dinner and, at 6h30 in the morning, made our way back to Mineral Waters (Mineralnye Vody), where we’d take our plane back to Moscow.
Which we did.
Otherwise I wouldn’t have written this post.

2 comments:

Agamenon Plait said...

Belo espaço. Inteligente e criativo.
Estarei por aqui sempre para buscar informações e me atualizar.
Sua comunicação flui facilmente deixando-nos à vontade.
Gostei muito do estilo do blog e vou trabalhar para o meu, que está recem inaugurado, ter a mesma qualidade.
A propósito, dê-me a honra de sua visita. Necessito de colaboração, críticas e sugestões. Elas serão bem-vindas.
Sempre que puder estarei participando com sugestões, caso entenda serem pertinentes e construtivas.
Sucesso sempre, foco contínuo.
Forte abraço.
agamenonplait.blogspot.com

Anonymous said...

VOCÊ PODERIA ME DIZER QUANTO EU GASTARIA NESTA VIAGEM SAINDO DO BRASIL? PODERIA INDICAR UMA AGÊNCIA, ETC?